Incubadora de Empresas – CRITT (Centro Regional de Inovação e Transferência de Tecnologia)

Juiz de Fora conta hoje com uma Incubadora de Empresas de Base Tecnológica (IBT), o Centro Regional de Inovação e Transferência de Tecnologia (CRITT), da Universidade Federalde Juiz de Fora (UFJF).

A incubadora é o Nucleo de Inovação Tecnológica (NIT) da Universidade, vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Tecnológico (Sedetec). Como outras incubadoras, foi criada com o objetivo de auxiliar empresas inovadoras a desenvolverem seus negócios.

Em 2008 apresentei um projeto, fui aprovado e tive minha empresa Incubada no CRITT por alguns anos, até sua graduação, chegando até a incorporar outra empresa de desenvolvimento mobile também incubada.

Depois de alguns meses na incubadora, comecei a observar melhor uma certa precariedade em vários aspectos. Comento aqui apenas a minha experiência dos anos que passamos lá.

Segurança

Por várias vezes a incubadora “dormiu” de portas abertas. Não havia uma organização eficaz do tipo “depois da 18 horas a porta deve ser trancada”. Como o prédio era dividido com outro órgão da UFJF, o pessoal não ligava muito se a porta estava trancada ou não ao irem pra casa no final do dia. Quanto a segurança da informação, uma vez que o acesso físico é frágil, não há informação que fique segura.

Transferência de tecnologia

Tentamos algumas vezes contato com professores da Universidade com o objetivo de trabalharmos juntos, desenvolvendo produtos, aplicando novas tecnologias, enfim, transferindo tecnologia. Nunca (eu disse NUNCA) conseguimos sequer sentar com um professor para conversar. Outras empresas incubadas passavam pelo mesmo problema. Cheguei a ouvir dizer que os professores não gostavam de trabalhar com as empresas incubadas.

O único professor com o qual tivemos contato, nos procurou para fazer o site de uma instituição da qual fazia parte, e veio através da recomendação de sua  filha.

Facilitação de contatos

Existia uma promessa de que empresas incubadas teriam contato com grandes empresas, investidores e facilitadores. Durante todo o processo de incubação apenas uma vez apresentamos projetos para um investidor no CRITT. Este investidor, eu tinha conhecido num evento em Belo Horizonte e sugeri que viesse a Juiz de Fora.

O CRITT não tinha contatos com empresas para realizar qualquer tipo de “ponte” entre “nós e eles”. Sentíamos falta disto, queríamos ser colocados “na boca do gol”, e eu reclamava disso periodicamente, mas acabou sendo outra promessa não cumprida.

Conexão e telefonia

A incubadora deveria oferecer internet para as empresas, mas a conexão funcionava esporadicamente. Passávamos horas por dia sem conexão… Imagine você, uma empresa de tecnologia, sem acesso a Internet. Parece piada mas não é.

Reclamávamos, como sempre fazíamos quando algo estava fora do esperado. Depois de muito reclamar, resolvemos contratar nossas próprias conexões, foi quando descobrimos (da pior maneira possível) que a infraestrutura da universidade não comportava novos cabos de telefonia. Ficamos nessa condição insustentável por meses. Quando estávamos prestes a desistir, conseguiram movimentar a prefeitura da Universidade para facilitar a passagem de tais cabos. Enfim, cerca de 10 meses depois de entrarmos, pela primeira vez, tínhamos conexão de internet 24 horas por dia, 7 dias por semana.

Apenas em 2011 a UFJF atualizou toda sua infraestrutura de rede e passamos a ter conexão de altíssima velocidade. Mesmo assim, ela não nos atendia completamente e precisamos continuar mantendo (e pagando) a conexão com o velox; as regras do firewall da UFJF eram fora da realidade para empresas de tecnologia. Não tínhamos acesso a FTP por exemplo, algo vital para trabalhar com sistemas online. Além disto, a universidade desligava a conexão em feriados e alguns finais de semana. Eu sei que parece piada, mas não é.

Empresa privada

A universidade nunca se lembrava que existiam empresas privadas dentro de seu espaço físico. Em alguns feriados prolongados a universidade desligava a internet, já que não teria “ninguém” trabalhando. Por algumas vezes fui trabalhar em feriados e fui proibido de entrar no prédio, quase nunca havia ninguém no departamento de segurança que pudesse aprovar minha passagem e assim eu tinha que voltar pra casa.

Politica

A administração do CRITT me parece ser um cargo politico na UFJF. Escolhem algumas pessoas, dão os cargos, pagam um pouco mais no final do mês e pronto. Eu sentia isso, principalmente quando o diretor do CRITT se esforçava muito em ajudar-nos, mas, não tinha autonomia ou autoridade o suficiente para resolver o problema. A estrutura era toda muito engessada.

Foi interessante conhecer o Brasil que a maioria não conhece, convivendo com a realidade de um órgão público diariamente. Se fosse preciso comprar um bebedouro, esperaríamos ao menos uns 12 meses, o produto entregue seria de baixa qualidade, não seria instalado corretamente, e por final, só teria água morna. Tudo o que precisava ser comprado seguia esse modelo, por final, os desejos reais nunca eram atendidos e os problemas sempre parcialmente resolvidos. Como tudo o que depende de política no Brasil.

Energia elétrica

Não havia um mês sequer que não ficávamos uma tarde inteira sem energia elétrica. O impacto na produtividade era enorme. Depois de muito reclamarmos, compraram um gerador. Meses depois da chegada do equipamento, ainda não tinham conseguido “configurar” corretamente e continuávamos sofrendo com falta de energia elétrica periódicas, até o final da nossa incubação.

Ar Condicionado

Esta foi a maior novela que vivemos no CRITT. No primeiro verão dentro do galpão da incubadora, cozinhamos. Como tínhamos chegado a pouco, ficamos meio sem jeito de reclamar pra valer. No ano seguinte, já na primavera, estava insuportável. Eu e o proprietário de outra empresa incubada (Petherson da Infomobi) resolvemos reclamar. Nossas equipes não se sentiam bem trabalhando em um forno, até porque as equipes de T.I estão acostumadas a trabalharem em ambientes climatizados.

Mensalmente a direção do CRITT realizava uma reunião, RIP, para alinhar com as empresas as ações e apresentar no que estavam trabalhando. Insistentemente reclamávamos do calor excessivo nestas reuniões, bem como outras muitas coisas que estavam aquém do esperado. Em determinado momento a reunião passou a ser bimestral, porque o CRITT não conseguia atender nossos pedidos e as reuniões pareciam capítulos repetidos de uma mesma novela.

Passamos então o verão de 2008 e de 2009 no forno. Eles diziam que estavam vendo, que iriam abrir uma licitação e a coisa simplesmente não ia. Não nos permitiam também colocar o ar condicionado por conta própria em nossos “boxes”. Em 2010, quando o calor começou a chegar já estávamos “por aqui” com essa história, exigimos que nos permitissem instalar os equipamentos, e por fim cederam. Dai até o dia em que ligamos os aparelhos também foram alguns meses, porque dependíamos da equipe de manutenção da UFJF para fazer os cortes nas janelas e puxar a energia elétrica.

Resumo da ópera; durante 3 anos nós e nossas equipes trabalhamos em um ambiente muito quente (o suor escorria pela testa). No verão de 2011 o ar condicionado licitado chegou, mas a empresa da Bahia que fez a venda, só vendia, não instalava, e o mesmo só foi instalado quase um ano depois, no inverno seguinte.

As empresas que já estavam lá antes de nós, já haviam reclamado até cansar do calor (e de outras tantas coisas), mas desistiram de “dar murro em ponta de faca”. Estes empresários que chegaram primeiro nos davam muito apoio e nos incentivavam a reclamar.

Inovação tecnológica pra que?

Nos 4 anos que estive com minha empresa incubada, não percebi nenhum esforço “autêntico” da UFJF em fazer o CRITT ser um sucesso. Nunca vi o reitor entrar naquele prédio.

Em 2008 já diziam que o Parque Tecnológico estava quase pronto. Em 2011 se não me engano compraram o terreno e até o presente momento (2014) não conseguiram a liberação ambiental para a construção. Mas, acredito que o parque trará bons negócios para a cidade, só nos resta esperar.

Concluindo

Dou crédito para o CRITT, acho que é uma instituição necessária, porém, sem investimentos não terá grandes casos de sucesso, como não tem tido há muitos anos.

É um ponto positivo no mercado de tecnologia na cidade? Sim, mas, infelizmente não é tudo o que parece ser, e não podemos imaginar que é um polo de tecnologia ou algo do tipo, é apenas uma pequena incubadora, com pouquíssimos recursos, sem articulação e com pouco acesso ao mercado da inovação.

Adicionado em maio de 2014 – Depois de receber algumas críticas, ressalto aqui meu objetivo de apresentar a realidade apenas. Desejo que o mercado se desenvolva e que os pontos fracos (da incubadora, das instituições de ensino) sejam corrigidos para que tenhamos cada vez mais sucesso em nossa cidade.

Referências

Adicionado em agosto de 2015

Recentemente tomei conhecimento de que a UFJF está investindo mais de 10 milhões de reais na construção de um planetário. Tenho certeza que o CRITT não recebeu sequer 1% deste investimento nos últimos 5 anos.

Que vocação é esse pra astronomia, que eu não sabia que Juiz de Fora tinha? Já a vocação para tecnologia, eu achava, que era evidente. Penso que é preciso investir na coisa certa. Mas é só minha opinião.

Adicionado em novembro de 2018

A questão da integração das empresas com os professores, ou do mercado com a academia, vejo hoje que não era um problema do CRITT especificamente, trata-se de uma cultura onde o acadêmico precisa produzir teses e repetir o que já foi dito por alguém, afim de melhorar sua classificação no lattes, ao invés de criar algo focado no mercado.

Tenho visto algumas poucas empresas prosperando com estas parcerias sim, mas são aquelas onde um dos sócios é professor da universidade e com isso consegue um número incrível de bolsas, aprovações em projetos de fomento e demais recursos. Não estou falando que estão errados em fazer isso, mas, já se tornaram profissionais em se beneficiar da máquina pública e do modelo ali instituído.

Atualmente tenho visto a direção do CRITT muito mais empenhada em estar conectada a realidade, não só das empresas incubada mas também do mundo que existe ao redor do campus da universidade. Fico feliz em ver que pessoas interessadas, buscando vencer as barreiras legais e políticas para criar um ambiente propício para o crescimento.

Quanto ao parque tecnológico, ainda não existe, está todo “embargado”, não sei ao certo o porque. Já o planetário, está lá. Preciso aprender mais sobre foco.

 


Dossiê do Mercado de Tecnologia de Juiz de Fora

Este conteúdo faz parte de uma coleção de posts relacionados e que representam meu ponto de vista sobre o mercado de tecnologia e sua evolução na cidade de Juiz de Fora.