Inovação da boca pra fora

Uns anos atrás quando a empresa se dizia “inovadora”, era chique, era bonito, era status. Na verdade as empresas não querem inovação, inovação para as pequenas e médias empresas significa risco, e ninguém quer arriscar nos negócios.

Procuramos várias destas empresas “inovadoras” para apresentar nossos produtos e serviços inovadores, e digo que quase nenhuma delas “topou” inovar… queriam era “mais do mesmo”.

Inovação em processos?

Nosso principal produto em 2011 era o Integre.se, um sistema de comunicação interna voltado para organizar a empresa utilizando-se de um potente gerenciador de processos, que levava para cada usuário suas etapas nos processos, facilitando a troca de informações e gestão do andamento das rotas da empresa. Além disto o sistema tem toda uma filosofia de colaboração, endomarketing e rede social interna. Nada de só timeline e troca de mensagens, é um sistema que dá aumento significativo de produtividade.

Dai, que poucas empresas que visitamos tinham processos definidos… mesmo as indústrias, não tinham ou não sabiam exatamente quais eram seus processos. Assim toda conversa já ficava mais complicada. Algumas tinham contratado consultoria, ou passaram por projetos do Sebrae e mapearam alguns processos, mas, aquilo era impresso, emoldurado, pendurado na parede para todos verem, mas não tinham como ser lembrados e seguidos no dia-a-dia.

Dois ponto…? Não. Zero.

As palavras “colaboração” e “compartilhamento” também causava medo nestas empresas, que logo se imaginavam perdendo o controle da informação, achando que de uma hora pra outra tudo estaria disponível publicamente na internet.

Se por um lado não queriam nada que permitisse que os colaboradores tivessem acesso a informação, por outro tinham uma rede local sem qualquer controle de acesso, onde qualquer pessoa poderia “plugar” um pen-drive e copiar todos os arquivos da empresa, para ler em casa ou mostrar para um conhecido próximo.

O maior medo destas empresas é com o concorrente. Se preocupam mais com os concorrentes do que com os clientes.

Pagar pra que?

Eu pensava que veria datacenters, servidores virtualizados, ótima infra-estruturas de tecnologia de informação e muito conhecimento nestas empresas… mas o que vi eram “servidores” com Windows XP pirata, redes sem fio com baixa segurança, funcionários sem qualquer capacitação e um técnico do século passado responsável pela “informática”, fumando igual a uma chaminé e torcendo para chegar sexta-feira. 

Pagar pelo Windows? Pagar por suporte? Pagar para capacitação? Pra que?

A direção destas empresas pensam que seu servidor ali (XP pirata) é mais seguro que um servidor na nuvem (Amazon ou Google), que online “alguém entra e rouba tudo”.

Cultura

A cultura é a seguinte, “chegue no horário, trabalhe calado, não reclame do salário nem peça aumento, as ideias novas deixe pra depois, concentre no trabalho“. Qualquer projeto que proponha uma nova filosofia para estas empresas colocará em risco esta cultura já existente, que sempre funcionou.

Não vou dizer que estes empresários estão errados (só eles sabem as dificuldades para chegar até os dias de hoje), mas, querer inovar em empresas como estas é “dar murro em ponta de faca”.

Inovar pra que?

As empresas que se diziam “inovadoras”, não tinham nada de inovação, a inovação foi alguém (ou alguma agência de marketing) colocar os dizeres “empresa inovadora” pra ficar mais chique, afinal, quem inova se destaca no mercado (fica melhor que o concorrente).

O que as empresas realmente buscam é algo que diretamente aumente as vendas, que melhore o lucro. Não pode demorar pra isso, nem pode criar nova cultura na empresa. Qualquer coisa além disto não terá serventia ou irá atrapalhar as pessoas no seu trabalho.

Este post ao meu ver expõe a realidade de cerca de 95% das empresas de Juiz de Fora (em 2014), mostra como o mineiro é desconfiado, tradicionalista e reflete um histórico do mercado e da forma de se fazer negócios na cidade.

 

Adicionado em novembro de 2018

No tempo em que escrevi originalmente este post eu tinha um produto que serviria como uma luva para  muitas empresas, e prestava serviço diariamente para algumas indústrias da cidade. Olhando pra trás agora percebo que muitas daquelas “empresas inovadoras”, morreram, não existem mais,  foram engolidas pela modernidade e não tiveram capacidade de se atualizar, para ao menos lutarem em nível de igualdade com seus concorrentes.

Tenho participado de grupos e discussões com alguns representantes de instituições, e vejo que muitas empresas tradicionais estão em linha descendente, porque demoraram muito para se ligarem na tecnologia, para acompanhar as tendências, ou para se abrirem ao novo. 

Realizamos estes dias um grande evento de startups onde só foi falado de inovação, tendências e oportunidades. O evento aconteceu dividindo espaço com a Federaminas, onde os empresários tradicionais estavam. Dos mais quinhentos lá presentes, menos de uma dúzia foram ao espaço das startups buscar conhecimento e atualização. O que é uma pena. Quantos deles estarão ainda no mercado ano que vem?

 


Dossiê do Mercado de Tecnologia de Juiz de Fora

Este conteúdo faz parte de uma coleção de posts relacionados e que representam meu ponto de vista sobre o mercado de tecnologia e sua evolução na cidade de Juiz de Fora.